Curso de Licenciatura em Pedagogia à Distância
Faculdade de Educação (FACED)
Sociedade da Inclusão e Exclusão Digital
Trabalho de Conclusão de Curso de graduação apresentado à comissão de graduação do Curso de Pedagogia – Licenciatura, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul como requisito parcial e obrigatório para a obtenção do título de Licenciada em Pedagogia.
Orientadora: Clevi Elena Rapkiewicz, DSc.
Tutora: Giselda Corrêa
São Leopoldo, 2010.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
Reitor : Prof. Carlos Alexandre Netto
Vice-Reitor: Prof. Rui Vicente Oppermann
Pró-reitora de Graduação: Profª Valquiria Link Bassani
Diretor da Faculdade de Educação: Prof. Johannes Doll
Coordenadoras do Curso de Graduação em Pedagogia – Licenciatura na modalidade a distância/PEAD: Profas. Rosane Aragón de Nevado e Marie Jane Soares Carvalho
Dedicatória
Este trabalho é dedicado de forma muito especial aos meus pais Eva M. P. da Silva e José Prado da Silva que, mesmo de longe, sempre me apoiaram e me incentivaram muito.
Aos meus amigos que entenderam os momentos de isolamento para a realização dos trabalhos, incluo aqui a dedicação exclusiva de Carin Isabel Dries que me ajudou em tempo integral, mesmo que fosse uma ajuda moral.
Agradecimentos
Agradeço de forma especial a Escola Municipal Otávio Rocha, que em nome da professora Ana Maria Strasburg e da coordenadora pedagógica Cristiane Spohr Spaniol, que confiaram em mim de forma ímpar para a realização do estágio e da observação, afim de que este trabalho fosse concluído com destreza.
De igual forma, também agradeço a professora titular da turma, professora Eloi de Bairros Barbosa que, em momento algum se indispôs a realização de qualquer projeto por mim sugerido, mostrando sua completa confiança em meu trabalho.
Não menos importante, os estudantes dessa turma de alfabetização de jovens e adultos, que me proporcionaram momentos de cumplicidade, de aprendizado e de muita, mais muita alegria. São pessoas muito especiais.
Resumo
A educação infantil é distinta da educação de jovens e adultos, uma vez que o adulto traz um histórico de vida, com família, emprego e seus próprios valores. Estar incluso em uma sociedade que está em constante transformação sob influência das novas tecnologias de informação e comunicação implica haver um engajamento da escola preparando estes jovens e adultos para uma nova realidade, a realidade tecnológica.
Neste trabalho foram descritas a motivação e a justificativa para a realização deste projeto uma vez que o professor e escola precisam estar atualizados quanto às mudanças da sociedade. Assim como o problema da exclusão de jovens e adultos pela sociedade, exclusão social e digital. Fizemos um breve relato do histórico da EJA desde a 1ª Constituição Brasileira até a atualidade. Destacamos dois grupos distintos na sociedade atual: os nativos digitais e os imigrantes digitais. Além da importância da inclusão tanto digital quanto social na EJA. Para a conclusão do trabalho, descrevemos algumas práticas de sala de aula, além da entrevista com a turma a qual foi feito o estágio.
A tecnologia veio para ficar e ajudar a resgatar a cidadania das pessoas que, por algum motivo, estão a margem da sociedade seja pela falta do conhecimento dos códigos de leitura e escrita, seja pela falta de oportunidade em usar as tecnologias. A sociedade necessita de pessoas aptas às novas tecnologias, com capacidade para decidirem, tomarem decisões quanto mais pessoas forem inclusas nesse processo menos desigualdades sociais e digitais teremos.
Palavras-chaves: inclusão, transformação, tecnologia.
Lista de siglas
CF – Constituição Federal
EJA – Educação de Jovens e Adultos
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
LDB – Lei de Diretrizes e Bases
MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização
SEA – Serviço de Educação de Adultos
TIC – Tecnologia da Informação e Comunicação
UNE – União Nacional dos Estudantes
UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura
Figura 1 - Convergência de Conteúdos, Computação e Comunicações...................................22
Figura 2 - Roda dos alimentos..................................................................................................31
Figura 3 - Roda dos alimentos 2...............................................................................................31
Figura 4 - Sombra dos Alimentos.............................................................................................32
Figura 5 - Pintar os alimentos...................................................................................................33
Figura 6 - Caça palavras de alimentos......................................................................................33
Figura 7 - Nome dos alimentos.................................................................................................33
Figura 8 - Estudante escrevendo nomes de partes do corpo humano.......................................34
Figura 9 - O corpo humano.......................................................................................................34
Tabela 1 = Histórico da EJA.....................................................................................................16
A sociedade está envolvida em novas tecnologias e, para tanto, quem não as tem está fora do mercado de trabalho e excluída da sociedade. Uma vez que a EJA, mais precisamente, as turmas de alfabetização, está excluído da sociedade por não decifrarem os códigos de leitura e escrita estão, também excluídas por não compartilharem dos recursos tecnológicos.
Estes jovens e adultos vivem a margem da sociedade, sendo eles excluídos do contexto sócio-cultural, vivendo oprimidos pela sociedade atual, uma sociedade midiática que ignora quem dela não participa. É dever da escola atrair estes jovens e adultos para, assim, prepará-los para a cidadania, transformando estes estudantes em co-participantes no seu processo de transformação. Assim, aliar o uso de TIC na EJA pode se um caminho para a inclusão.
Neste trabalho analisamos o uso de TIC com uma turma de EJA na Escola Municipal de Ensino Fundamental Otávio Rocha em Estância Velha , visando oportunizar aos educandos daquela turma vivenciar com uso da tecnologia de forma a lhes proporcional um inicio de inclusão digital.
Este trabalho está dividido em quatro capítulos, sendo o primeiro a introdução. O segundo capítulo, que conta com quatro seções onde a primeira seção relata meu percurso como professora e as inquietações sobre o uso da informática na sala de aula.
Na segunda seção do capítulo dois trata do problema observado em sala de aula que se reflete na sociedade, a falta de interesse pelo uso das TICs e ainda a falta de oportunidade por pessoas pertencentes às classes sociais baixas.
Na terceira seção do mesmo capítulo, fala exatamente das questões, hipóteses e os objetivos que levaram a iniciação deste trabalho uma vez que, é fato, que a sociedade mudou e está mudando e esta realidade deve ser levada para dentro das salas de EJA, há necessidade, portanto, do ensino de jovens e adultos se (re) adaptarem a esta nova realidade. Há necessidade, portanto, do ensino de jovens e adultos se (re) adaptarem a esta nova realidade.
Na quarta seção, descrevemos a característica da escola em que houve o estágio e observação, as referencias onde buscamos apoio para a construção do trabalho, além da descrição dos métodos utilizados para a pesquisa.
O capítulo três que trata do referencial teórico está dividido em quatro seções, em que a primeira seção nos trás e evolução histórica do ensino no Brasil, mais precisamente a histórica da EJA.
A seção dois trata da sociedade em que vivemos, ou seja, a sociedade da informação, que trás dois grupos distintos de pessoas em que o primeiro grupo são os imigrantes digitais e o segundo grupo os nativos digitais.
Na seção três nos trás a importância a inclusão dos estudantes jovens e adultos serem inseridos na sociedade, e para que isso ocorra entra a escola como primordial nesta ação. Já na seção quatro tratamos da inclusão digital dos estudantes da EJA, uma vez que são pessoas que já estão inseridos no mercado de trabalho, além da obtenção de informações e conhecimento.
No capítulo quatro, trás os resultados obtidos nesse estudo e está divididos em duas seções, a primeira seção, consta com duas subseções, onde a primeira subseção trás as práticas utilizadas durante o estágio e a segunda subseção as reflexões sobre as práticas. Já na seção dois do capítulo quatro, trazemos os relatos das entrevistas feitas com os estudantes.
Este trabalho tem a finalidade de mostrar ao leitor a importância do uso da informática para estudantes da EJA que, em sua maioria ou são pessoas de mais idade que não se adaptaram às novas tecnologias, ou ainda, pessoas consideradas analfabetas.
Nesse capítulo é descrita minha trajetória como docente, além de meus questionamentos sobre o uso das TICs e a utilização dos mesmos na EJA, buscando delimitar a problemática da pesquisa bem como a hipótese analisada e a metodologia usada.
2.1. Justificativa e motivação
Sou professora desde 1990, iniciei em São Paulo de onde sou natural, sempre atuando na área de Ciências Físicas e Biológicas de 5ª a 8ª série.
Sempre tentei fazer das minhas aulas, aulas que despertassem curiosidade nos estudantes com temas que os remetessem para seu cotidiano, sendo meio ambiente ou fatos relacionados ao seu corpo, para tanto usava todos os materiais disponíveis na escola, desde livros, cartazes, episcópio, retro-projetor, projetor de slides, aparelho de som e data show.
Nestes vinte anos de magistério houve um avanço tecnológico significativo que, ao meu ver, a escola não acompanhou, os alunos estão bem mais avançados tecnologicamente do que a escola, fato é que a escola não chama mais atenção dos estudantes e a evasão é grande. No contexto da EJA não parece ser diferente.
Em 2010, fui fazer estágio em uma turma de alfabetização da EJA. Enquanto assistia a uma das aulas, que era ministrada por uma professora aposentada da rede estadual, portanto, que leciona há mais de trinta anos, me senti como se estivesse em meu primeiro dia de aula, com meus sete anos de idade, ou seja, nada mudou.
Como professora há algum tempo, estudante e futura pedagoga, fico me questionando sobre o uso dos recursos tecnológicos existentes. Como preparar os professores atuais para o uso destes equipamentos? Como inserir as tecnologias nos alunos da EJA que estão se alfabetizando depois de adultos, portanto, não tem acesso à leitura e escrita, mesmo estando o uso das TICs, inserido em seu dia-a-dia.
2.2. Caracterização do problema
A partir da década de 90 vivemos momentos de transformação e explosão tecnológica, as informações nos chegam instantaneamente ao ocorrido e por vários meios. Vivemos numa globalização cultural, graças à mídia.
Para que a escola consiga, de fato, atingir seu objetivo, deve usar materiais atuais, que fazem parte da rotina dos jovens e adultos, tanto aqueles em idade regular de escolaridade quanto para os jovens que estão retornando à escola, pois, por algum motivo a abandonaram.
O uso das TICs na EJA passa por problemas que vão desde a falta de interesse de alguns estudantes que, ao voltarem para a escola depois de muito tempo imaginam que as aulas devem ser de forma tradicional, ou seja, copiar matéria e ouvir o professor falar, até a resistência de professores também tradicionais, cujo seu método de ensino passa pelas cópias e repetições que os estudantes devem se submeter.
Segundo dados da pesquisa TIC DOMICILIOS/2009 (CETIC, 2009) somente 16% de pessoas entre 45 e 59 anos usam a internet e quando se refere à classe social D e E, 18% vão em busca de informação usando algum meio tecnológico. Enquanto 95% de pessoas com nível superior de ensino usam o computador, apenas 19% de pessoas analfabetas ou com educação infantil fazem uso do computador. Tanto as pessoas com mais idade, quanto pessoas de classe social baixa e nível escolar baixo, são pessoas oprimidas socialmente pelos opressores que detêm a mídia.
No ensino de jovens e adultos deve-se colocar a disposição desses estudantes, de forma clara e objetiva, a preparação para a realidade em que vivemos, a fim de incluirmos estas pessoas para participarem da sociedade mais ativamente.
Neste contexto, pessoas sem acesso aos meios de comunicação, são, portanto isoladas da sociedade, onde o que rege esta sociedade são os meios de comunicação e o acesso às tecnologias, uma vez que tecnologia, informação e conhecimento são fundamentais para se viver numa sociedade que inclui/exclui com a mesma intensidade.
Nesse contexto, o problema abordado neste trabalho é o acesso as TICs em turmas de EJA, buscando oportunizar a inclusão digital.
2.3. Questões, Hipótese e Objetivos da Pesquisa.
Considerando o tema deste trabalho de conclusão de curso, o problema delimitado, inclusão digital de alunos da EJA, foi estabelecida a seguinte questão de pesquisa:
As TICs contribuem para o desenvolvimento social e pessoal dos estudantes da EJA?
A partir dessa questão, identificam-se as seguintes questões específicas:
Para que usar tecnologias na EJA?
Como usar as tecnologias para a EJA?
Em que as tecnologias contribuem para a aquisição de conhecimentos na EJA?
Que atividades podem ser desenvolvidas na EJA usando as tecnologias?
Nesse contexto, parte-se da hipótese de que as TICs podem contribuir para a inclusão social de estudantes da EJA ao facilitar a aprendizagem.
Portanto, este projeto tem como objetivo geral a tomada de consciência sobre o uso das novas tecnologias, tanto professores quanto os estudantes, estes últimos que, por algum motivo/razão, não conseguiram concluir seus estudos na idade regular de ensino e estão retornando à escola.
Há necessidade, portanto, do ensino de jovens e adultos se (re) adaptarem a esta nova realidade, traçando metas e objetivos claros de adequação das tecnologias no contexto social para a inserção dessas pessoas numa sociedade crítica e excludente no que diz respeito às pessoas com mais idade ou num nível social menor.
Decorrentes desse objetivo geral propõem-se os seguintes objetivos específicos:
Usar as tecnologias para a aquisição de informações relativas a um contexto geral diante da sociedade, além de estar atualizado e de acordo com o que exige o mercado de trabalho;
Apresentar as tecnologias de forma a mostrar a interação da mesma com o mundo em que vive cada estudante.
Usar as tecnologias para aprimorar e ajudar no entendimento das questões em sala de aula, uma vez que além da voz e do diálogo mantido com os estudantes, existem questões como animações, imagens, sons que atraem e dão “vida” a conteúdos que ouviu em sala.
2.4 Metodologia
O estudo de caso em questão foi feito na Escola Municipal de Ensino Fundamental Otávio Rocha, na cidade de Estância Velha, bairro Floresta, região do Vale dos Sinos.
São sete salas de aula, biblioteca, laboratório de informática com 19 computadores, sala dos professores, secretaria, sala de direção, cozinha, banheiros, além do pátio com quadra poliesportiva reestruturada.
A escola está estruturada nas dependências de alvenaria, sendo que o auditório, que fica no segundo piso, foi dividido em 3 salas de aula, secretaria, sala de materiais de educação física, assim como a biblioteca. É uma turma heterogênea em que alguns estudantes conseguem ler pequenas frases, enquanto outros não conseguem distinguir uma letra da outra. São seis estudantes jovens e adultos, com idade entre 18 e 47 anos, sendo que são dois homens e quatro mulheres em uma turma de alfabetização.
Dos seis estudantes somente dois trabalham, um trabalha na construção civil e uma estudante é funcionária da prefeitura como ajudante geral, dois são estudantes considerados de inclusão, um deles (com 18 anos) é considerado inapto para o trabalho e uma estudante tem deficiência física (coordenação motora). As outras duas estudantes são do lar.
São estudantes com poder aquisitivo baixo, todos morando em bairros pobres do município de Estância Velha.
As práticas pedagógicas ocorreram entre a sala de aula e o laboratório de informática cujos assuntos eram os mesmos, buscando complementaridade. A análise dessas práticas constituiu uma das etapas desse trabalho (guia no apêndice).
Além das observações feitas também foram realizadas entrevistas com os estudantes a fim de sabermos a opinião de cada um sobre o uso de computadores e a importância do mesmo em suas vidas, após terem tido contato com TIC no estágio.
As vantagens de um estudo de caso é que podemos constituir um arquivo de material rico onde podemos fazer várias interpretações, relacionando a teoria a prática. Já as desvantagens ficam por conta da pouca possibilidade de generalizações.
No próximo capítulo apresentaremos o referencial teórico.
3 – REFERENCIAL TEÓRICO
Neste capítulo é apresentada uma reflexão sobre as mudanças pelas quais passou e passa a educação brasileira até os dias atuais, dando ênfase à inclusão e exclusão tanto social quanto digital.
3.1 – Educação de Jovens e Adultos: Uma visão histórica
A busca da inclusão de jovens e adultos nem sempre foi evidente no Brasil. A tabela 1, comentada em seguida, mostra uma breve visão histórica das providências feitas no Brasil em relação ao EJA.
ANO | FATOS |
1824 | Primeira Constituição Brasileira – garantia instrução primária e gratuita a todos os cidadãos. |
1834 | Educação reservada às elites, uma vez que às Províncias, com menor poder aquisitivo, eram responsáveis pela grande massa carente da população. |
1891 | Províncias e Municípios eram responsáveis pela educação. |
1920 | Pressão dos educadores e da população para que o Estado assumisse a responsabilidade pela educação em geral. |
1940 | A educação de adultos começa a ter seu cuidado merecido pelo Estado, devido à preocupação geral com a educação das camadas populares. |
1942 | O Fundo Nacional do Ensino Primário deveria ser estendido ao Supletivo. |
1947 | Surge o SEA, serviço que distribuía material para mobilizar a opinião pública sobre a educação de jovens e adultos. |
1952 | Campanha Nacional de Educação Rural. |
1958 | Campanha Nacional da Erradicação do Analfabetismo. |
1964 | Centros populares de Cultura mobilizavam as massas acerca dos problemas no ensino brasileiro. |
1964 | Programa Nacional de Alfabetização do Ministério da Educação e Cultura. |
1964 | Golpe Militar, o Programa Nacional de Alfabetização foi interrompido. |
1967 | Criação do MOBRAL pela Lei 5.379, de 15 de novembro. |
1970 | A CNBB usava o Movimento de Educação de Base como instrumento de evangelização. |
1971 | Lei de Diretrizes e Bases, número 5.692, de 11 de agosto, consolida o Ensino Supletivo. |
1972 | O Parecer do Conselho Federal de Educação, sob o número 699, de 28 de julho trata especificamente do Ensino Supletivo. |
1988 | Constituição Federal garante a Educação Básica como direito de todos. |
1996 | Artigo 37, seção V da LDB garante acesso e continuidade ao estudo os jovens e adultos no ensino fundamental e médio. |
Fonte: Elaboração própria a partir de Haddad e Di Pierro (2000)
A educação de adolescentes e adultos não é nova, uma vez que no período colonial os religiosos, além de difundir o evangelho ensinavam normas de comportamento e os ofícios necessários à economia colonial (HADDAD; DI PIERRO, 2000).
A primeira Constituição Brasileira que garantia instrução primária e gratuita a todos os cidadãos data de 1824 (HADDAD; DI PIERRO, 2000), inclui-se, para tanto, os adultos. Ainda, segundo Haddad e Di Pierro (2000), quase nada, na prática, foi feito, ou seja, não passou do papel.
No período Imperial não possuíam cidadania os negros, indígenas e grande parte das mulheres, isso porque em 1834 a responsabilidade da educação era das Províncias que reservou esse direito às elites, uma vez que as instancias administrativas, com menor poder aquisitivo, tinha a responsabilidade de educar a população carente que era em maior número. (HADDAD; DI PIERRO, 2000).
A Constituição de 1891 passou a responsabilidade pelo ensino básico às Províncias e Municípios, que com a fragilidade financeira das mesmas, tinham que arcar com uma parcela grande e marginalizada da população e ainda não tinha a educação básica. Mais uma vez a grande população não era beneficiada.
No período da Primeira República, houve uma grande quantidade de reformas educacionais, mostrando a preocupação com o estado precário do ensino básico (HADDAD; DI PIERRO, 2000).
Até então, portanto, não havia uma preocupação pedagógica ou políticas educacionais específicas para a educação de jovens e adultos.
A partir da década de 1920, os movimentos de educadores e da população, começaram a estabelecer condições favoráveis à implementação de políticas públicas para a educação de jovens e adultos, exigindo do Estado a responsabilidade pela educação deste grupo.
Mas foi somente em 1940 que a educação de adultos tornou-se um problema de política nacional e recebia um tratamento particular, isso se dava através do Plano Nacional de Educação que estava previsto na Constituição de 1934.
Em 1942, o Fundo Nacional do Ensino Primário deveria realizar um programa progressivo de ampliação da educação primária estendida ao Ensino Supletivo para adolescentes e adultos (HADDAD; DI PIERRO, 2000).
Em 1947, foi instalado o Serviço de Educação de Adultos (SEA) desenvolvendo atividades como a produção e distribuição de material didático mobilizando a opinião pública, governos estaduais e municipais e a iniciativa particular, esse movimento estendeu-se até fins da década de 1950 (HADDAD; DI PIERRO, 2000).
Houve duas campanhas posteriores organizadas pelo Ministério da Educação e Cultura, ambas com vida curta, a primeira em 1952 – Campanha Nacional de Educação Rural, que tinha como objetivo orientar os líderes e dirigentes comunitários sobre hábitos de higiene e de trabalho, despertando no homem rural o espírito comunitário, o valor humano e o senso de responsabilidade (PAIVA, 1987) -, e em 1958 – Campanha Nacional da Erradicação do Analfabetismo, esta campanha surge como uma nova etapa na educação de jovens e adultos a fim de erradicar o analfabetismo (INEP, 2010).
É fato que, após uma atuação ineficaz do período Colonial, Império e Primeira República, foi a partir de 1940, com pressão das massas populares, os olhares políticos voltaram-se para os jovens e adultos analfabetos, mesmo porque era uma estratégia política para que as massas urbanas dessem sustentação política aos governos nacionais.
Em 1958, o II Congresso Nacional de Educação de Adultos, marcou um novo momento no pensar dos educadores.
[…] marcava o congresso o início de um novo período na educação de adultos no Brasil, aquele que se caracterizou pela intensa busca de maior eficiência metodológica e por inovações importantes neste terreno, pela reintrodução da reflexão sobre o social no pensamento pedagógico brasileiro e pelos esforços realizados pelos mais diversos grupos em favor da educação da população adulta para a participação na vida política na Nação. (PAIVA, 1973, p. 210).
Entre 1959 até 1964, houve vários acontecimentos, campanhas e programas no âmbito da educação de adultos, entre outros: o Movimento de Cultura Popular do Recife, patrocinado pelo governo federal e organizado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (1961); os Centros populares de Cultura (órgãos culturais da UNE); Campanha de Pé no Chão Também se Aprende a Ler (Secretaria Municipal de Educação de Natal); e em 1964 o Programa Nacional de Alfabetização do Ministério da Educação e Cultura, que contou com a participação do professor Paulo Freire.
A partir de então a educação de adultos passou a ser reconhecida como poderoso instrumento de ação política (HADDAD; DI PIERRO, 2000).
Veio o golpe militar de 1964, os dirigentes dos movimentos populares foram perseguidos e presos e o Programa Nacional de Alfabetização interrompido (HADDAD; DI PIERRO, 2000).
A atuação do Movimento de Educação de Base da CNBB transformou-se na década de 1970, em um instrumento de evangelização, mais do que de educação popular (Haddad; Di Pierro, 2000).
Em 1967, fundou-se o MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização, pela Lei 5.379, de 15 de dezembro, após inúmeras críticas que o Estado vinha recebendo por abolir o ensino de alfabetização de adultos. O MOBRAL, então, deveria atender aos objetivos dos marginalizados do sistema escolar e também atender aos objetivos políticos dos governos militares. Ao final da década de 1970, o MOBRAL já havia passado por várias metamorfoses, distanciando-se dos objetivos iniciais que era erradicar o analfabetismo (HADDAD; DI PIERRO, 2000).
O marco seguinte foi à consolidação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional sob o número 5.692, em 11 de agosto de 1971. No capítulo IV ficou regulamentado o Ensino Supletivo. O Parecer do Conselho Federal de Educação, número 699, publicado em 28 de julho, de 1972 passou a tratar especificamente do Ensino Supletivo.
O ensino supletivo tinha a incumbência de recuperar o atraso de quem não pode completar a escolarização em tempo hábil e vinha à sociedade como um projeto de escola do futuro, pois não visava uma única classe da sociedade e sim quem se propusesse a participar do projeto.
Segundo Corrêa (2008), um passo importante que o Brasil deu para a regulamentação do Ensino Fundamental de Jovens e Adultos foi a Constituição Federal de 1988 CF/88, que garante a Educação Básica como um direito de todos, mas, no que se refere ao Ensino Fundamental de Jovens e Adultos, só se concretiza a partir da LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) de 1996 que insere a EJA como modalidade da Educação Básica regular.
Podemos considerar este, um grande passo na educação Brasileira, uma vez que proporcionou aos jovens e adultos escolas gratuitas, independente da idade, pessoas que foram marginalizadas e excluídas da sociedade, pois como afirma Gadotti (1995) pessoas que não tiveram oportunidades de estudos representam a pobreza e pobreza é fruto de uma sociedade injusta.
A seção V da LDB de 1996, transcrita a seguir, é composta por artigos que falam da Educação Básica nas etapas fundamental e média, isto significa que além de dar oportunidades para os jovens e adultos aprenderem a decifrar os códigos da escrita e da leitura, também oportuniza que estes estudantes dêem sequência em seus estudos, que tenham condições de trabalho e respeito pela sociedade.
Seção V
Da Educação de Jovens e Adultos
Art. 37. A educação de jovens e adultos será destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos no Ensino Fundamental e Médio na idade própria.
§ 1º Os sistemas de ensino assegurarão gratuitamente aos jovens e aos adultos, que não puderam efetuar os estudos na idade regular, oportunidades educacionais apropriadas, consideradas as características do alunado, seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames. [grifo nosso]
Para tanto, dar oportunidade a estes jovens e adultos significa não só que eles tenham escola, significa ter condições de estudo conforme seus interesses, seu dia-a-dia preparando-os para o mercado de trabalho, além de terem informações sobre seus direitos de cidadão.
Nessa trajetória percebe-se que a educação de jovens e adultos é distinta a educação de crianças, Considerando-se que os estudos não foram feitos na idade própria, tem-se um público já com um histórico de vida, que já traz consigo uma “bagagem” repleta de fatos, de momentos, de história. Sendo assim a escola deve estar conectada com a vida desse estudante, vida essa que varia de acordo com as características da sociedade na qual o educando esteja inserido. Como situar o educando adulto na sociedade atual, a assim chamada Sociedade da Informação, é o tema da próxima seção.
Vivemos atualmente na assim chamada sociedade da informação. Nessa sociedade, segundo Castells (1999), a maioria das profissões requer educação e treinamento além do ensino médio. O mesmo autor prevê um aumento significativo nas profissões especializadas e técnicas, também é fato que são eliminados dos empregos pessoas com baixa qualificação, para tanto, a globalização tende a marginalizar e tornar insignificantes países e povos excluídos das redes de informação.
O que dá suporte a essa sociedade é um conjunto de novas tecnologias de informação e comunicação que, segundo Takahashi (2000), é a convergência entre tecnologia de computação, comunicação e conteúdo (figura 1). As TICs dão suporte para a transformação da informação em recursos econômicos, ou seja, conhecimento, o uso das TICs serve para ampliar o acesso ao conhecimento, uma vez que os recursos tecnológicos passaram a fazer parte do contexto social, econômico e cultural da sociedade.

Figura 1 - Convergência de Conteúdos, Computação e Comunicações
Fonte: Takahashi (2000, p. 3)
A tecnologia, segundo Pinto (2002), em termos gerais e de forma resumida, é o domínio do conhecimento e da ação, ou seja, o saber e o fazer. Enquanto informação “são dados que foram organizados e comunicados” (PORAT, 1977, p. 2). Já comunicação, segundo o dicionário Aurélio “Ação de comunicar: estar em comunicação com alguém. / Aviso, mensagem, informação: comunicação de uma notícia”.
As TIC surgem como conjunto de tecnologias que permite produzir, armazenar, se comunicar, registrar e apresentar informações de forma rápida e em grande quantidade (Castells, 1999).
Para Castells (1999) a transformação mais significativa que tem ocorrido na sociedade nos últimos anos é a transformação da comunicação e, ao contrário do que muitos dizem a tecnologia não destruiu os empregos, esses empregos foram transformados e introduzidas ocupações novas. Nesses empregos, não há espaço para pessoas que tenham dificuldades com as TIC.
Ainda citando Castells, desde 1970, instalou-se um paradigma tecnológico, ou seja, um novo modelo de “produção, comunicação, gerenciamento e vida” (CASTELLS, 1999, p. 43) a fim de interagir com a economia global e geopolítica o que ajudou a evolução das novas tecnologias da informação.
Cada grupo em uma determinada sociedade adquire, por suas características, uma identidade própria, Castells (1999) entende por identidade o reconhecimento próprio que cada indivíduo tem diante da sociedade em que vive, tendo por base um determinado atributo ou conjunto de atributos cultural presentes nessa sociedade.
Nossa sociedade vive uma era midiática, em que tudo gira em torno das diversas mídias existentes, sobretudo a informática e seus meios de comunicação e, através dela podemos estar onde quisermos sem sair do lugar.
Pode-se notar que fazem parte dessas novas tecnologias produtos de uso do dia a dia das pessoas como caixas eletrônicos, cartões magnéticos, agendas eletrônicas, computadores, celulares. São tantos que não conseguimos citar a todos e nem tampouco especificar suas finalidades. A velocidade com que essas tecnologias chegam até nós é surpreendente a ponto de não conseguirmos acompanhar, embora façamos uso de algum tipo de tecnologia.
Segundos dados da pesquisa TIC DOMICILIOS/2009 (CETIC, 2009) nos mostra que, apesar do incentivo que o Governo Federal vem dando à população para incluí-la digitalmente, apenas 17% da população com poder aquisitivo baixo utilizam a internet. Já no que diz respeito à faixa etária dos usuários da internet, os dados da pesquisa apontam que entre 10 e 15 anos 63% usam a internet, entre 16 e 24 anos são 68%, entre 25 e 34 anos é de 51% e entre 45 e 59 anos são 16% os usuários de internet. No ano de 2008 os usuários entre 45 e 59 eram de 13%, ou seja, houve um aumento considerável de adultos utilizando a internet em um ano. No entanto, o percentual como um todo, é bastante reduzido.
A mesma pesquisa nos mostra que se levarmos em conta as classes sociais para a aquisição de informações, enquanto a classe A 88% usam algum mecanismo para adquirir informações, na classe D e E, apenas 18% vão a busca de informações usando algum mecanismo tecnológico.
Ou seja, quanto maior a classe social, mais condições em manter-se atualizado, cujo motivo pelo interesse à informação não será debatido nesse trabalho, por outro lado, quanto menor é sua classe social, menos interesse pelas informações e conhecimentos gerais.
No que diz respeito ao uso de computadores enquanto 90% de crianças entre 10 e 15 anos já usam computadores, apenas 28% das pessoas entre 45 e 59 anos usam essa tecnologia.
Outro dado importante que essa pesquisa nos mostra é que o uso dos computadores também depende consideravelmente do grau de escolaridade, pois, enquanto 19% de pessoas analfabetas ou com a educação infantil utilizam o computador, 95% das pessoas com ensino superior utilizam computador, podemos considerar que quanto mais alto o nível de escolaridade mais presente está o computador na vida dessas pessoas.
Já no que diz respeito à classe social 84% das pessoas da classe A acessam a internet diariamente, já, somente 34% das pessoas pertencentes às classes sociais D e E conseguem acessar a internet diariamente.
Ao se falar da escolaridade, quanto maior o nível de instrução maior a quantia de acesso à internet, sendo que o contrário também é verdade, quanto menor o grau de instrução, menores são as chances de acesso a internet, é o que nos mostra a pesquisa: analfabetos ou com educação infantil são 37%; pessoas com ensino superior são 78%.
Conforme os dados apresentados acima pode-se notar que os que não conseguem acesso à tecnologia são grupos conhecidos, pessoas com baixa escolaridade, pobres e com faixa etária mais elevada.
As pessoas nascidas a partir dos anos 90, não passaram por nenhuma grande transformação nos meios de comunicação, já estavam inseridas junto com a televisão, rádio e telefone, para tanto existe facilidade em usar todos os recursos tecnológicos disponíveis.
De forma contrária, pessoas que já passaram por transformações na comunicação como o surgimento do rádio, o início da televisão, que no Brasil ocorreu em 1950, o uso dos discos de vinil, rádio vitrola, o Long Playing e compact disc, celular, walkman, MP 3, MP4, ipod e outros estão passando mais uma vez pelo que Castells (1999) chama de “revolução da tecnologia da informação”.
Tendo claro estes dois grupos podemos chamar o primeiro grupo de nativos digitais e o segundo grupo de imigrantes digitais, tais termos usados por Prensky (2001).
A escola e os estudantes devem estar atentos que, para entender o mundo atual, precisam necessariamente entender os processos de desenvolvimento atual que gira em torno das tecnologias. Assim sendo, o indivíduo passa a conhecer a si mesmo como participante ativo desse processo de transformação.
Nos dias atuais podemos interagir com o mundo da forma mais simples que existe e sem sairmos de nossas casas, que é através de um meio rápido de comunicação, ou seja, a internet, para tanto nossa forma de leitura do mundo (FREIRE e MACEDO, 1987) tende a se modificar.
Uma vez que entendíamos o mundo através de livros e, esporadicamente, através de jornais e televisão, de uma forma que era transmitido o que os donos da mídia queriam que víssemos, agora temos os fatos, as notícias em tempo real e por fontes distintas. Tendo, assim, vários pontos de vista sobre os fatos que ocorrem no mundo podendo assim tecer opinião própria sobre o ocorrido.
As tecnologias estão relacionadas com o meio social em que vive o sujeito, estão fazendo parte de seu cotidiano, articulando-se e reorganizando-se (ALVES, 2001) de tal forma que seu uso torna-se indispensável, assim como afirma Castells (1999, p. 43) “… a tecnologia é a sociedade, e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas”.
Neste caso, se pensarmos na exclusão natural, pela sociedade das pessoas iletradas e a exclusão digital, a exclusão social é ainda maior, uma vez que, segundo pesquisa do Ibope/NetRatings de 2010, o número de horas em que um brasileiro ficou conectado em março do mesmo ano é de 32h34min.
Pois bem, uma pessoa não letrada é excluída da sociedade, primeiro por não saber ler, segundo por não estarem incluídos no mundo digital.
Surge-nos então um novo problema, se é que podemos chamar assim, o saber ou não usar as novas tecnologias. O uso das novas tecnologias para a alfabetização deve humanizar tanto opressores quanto oprimidos (FREIRE, 2005). Os oprimidos, nesse caso, são as pessoas que não têm acesso ao mundo digital, portanto não têm a informação, a não ser a informação dada pela grande mídia que serve ao poder político-econômico como instrumento de interpretação, para tanto são dominadas pela sociedade. Os opressores são as pessoas que detém o uso da mídia, que tem as informações na hora precisa, além da tecnologia ser resultado de apropriações culturais.
Os estudantes da EJA, neste contexto, são pessoas excluídas pela sociedade, primeiro por não possuírem escolarização, segundo por estarem desconectados com a nova realidade social, cabe aqui a escola alertá-los para essa nova realidade e inserir estes jovens e adultos a essa nova realidade.
3.3 - Inclusão Social na EJA
Estudantes da EJA são estudantes que trabalham o dia todo e, se levarmos em consideração esta principal característica veremos que quase não sobra tempo para o estudo, uma vez que, em sua maioria, seu turno de trabalho é de oito horas/dia e esse trabalho pode ser com vínculo empregatício ou sem.
Se levarmos em conta que, nos casos em que os estudantes precisam cuidar dos afazeres domésticos ou da família, esse tempo se restringe mais ainda. Ao pensarmos no quesito “tempo” dos estudantes da EJA, devemos pensar também nas metodologias usadas para atrair essa parte da população desprivilegiada pelas camadas dominantes da sociedade. Segundo dados do IBGE (2003), “no Brasil, os 10% mais ricos ganham dezoito vezes mais que os 40% mais pobres”.
A educação de jovens e adultos deve ser multicultural, que desenvolva o conhecimento e a integração na diversidade cultural (GADOTTI, 1979), uma educação que não exclua por motivos de etnia, gênero, idade ou por outras formas discriminatórias e isso não é privilégio da EJA, mas consideramos importante destacar aqui a importância de uma educação para a diversidade também na EJA.
Ainda citando Gadotti (1979), esses jovens e adultos lutam constantemente para a superação de suas condições de vida, seja moradia, saúde, alimentação, transporte, emprego, etc, o que é dificultado pelo fato de serem pessoas iletradas, excluídas pela sociedade.
A escola tem um papel fundamental na busca por estes jovens e adultos que estão, por algum motivo, longe da escola. Escola que deve fazer com que as pessoas se conscientizem de seus direitos e participem coletivamente das decisões para enfrentar seus problemas. Como educadores devemos ouvir o que estes estudantes têm a dizer e traçar um diálogo em que as idéias possam ser confrontadas e debatidas.
Para haver a inclusão na EJA, a escola deve compreender a dinâmica em que vivem estes estudantes, trazer para dentro da escola o que permeia seu dia-a-dia, sejam elas as questões econômicas, sociais, culturais, religiosas, políticas e afetivas, ou seja, manter um diálogo com o estudante, diálogo que Freire (1992) descreveu da seguinte forma:
Somente o homem, como um ser que trabalha, que tem um pensamento-linguagem, que atua e é capaz de refletir sobre si mesmo e sobre a sua própria atividade, que dele se separa, somente dele, ao alcançar tais níveis, se fez um ser da práxis […] Desprendendo-se do seu contorno, veio tornando-se um ser, não da adaptação, mas da transformação do contorno, um ser de decisão […] Daí que não haja outro caminho senão a dialogicidade. Para ser autêntico só pode ser dialógico. E ser dialógico, para o humanismo verdadeiro, não é dizer-se descomprometidamente - dialógico; é vivenciar o diálogo. Ser dialógico é não invadir, é não manipular, é não sloganizar. Ser dialógico é empenhar-se na transformação constante da realidade. (FREIRE, 1992, p. 39).
Para tanto, entender o mundo em que vive nossos estudantes da EJA é fundamental para uma boa relação aluno-escola, isso inclui diálogo, não podemos pensar que esses estudantes, em sua maioria, por não saber ler e escrever não sabe pensar, não tem conhecimento. Eles têm o conhecimento que a vida proporcionou a eles, o conhecimento de seu cotidiano. É de fundamental importância o diálogo com esses estudantes para, a partir daí, traçar métodos de envolvimento e interesse na busca de novos aprendizados.
O estudante adulto quer aplicar de imediato o que aprende na escola, embora, segundo Gadotti (1979), ele sinta-se temeroso por mais um fracasso em sua vida, daí entra o estímulo que a escola deve dar a este estudante.
A educação de jovens e adultos está, então, se dirigindo ao fracasso caso não tomemos como premissas suas condições de vida, seu trabalho, sua família, enfim, tudo o que envolve a vida deste estudante adulto.
As novas práticas pedagógicas devem fazer parte do mundo escolar desses estudantes, uma vez que, como nos afirma Oliveira (1999) há altos índices de evasão e reprovação na educação de jovens e adultos, exatamente pela falta de sintonia entre a escola e estes estudantes, além dos fatores socioeconômicos.
Um estudante que tem família trabalha o dia todo, ao chegar à escola e não encontra algo atrativo ou que demonstre uso em seu dia-a-dia, desestrutura suas expectativas de aprendizado, além de serem mais atrativas as horas extras trabalhadas para o sustento da família ou outros interesses. Portanto, a inclusão social se dá pela ação da escola e trazendo assuntos do cotidiano do público adulto. E, também, trazendo tecnologias que estão inseridas no cotidiano das pessoas. É essencial, pois, que haja inserção de TICs no processo educativo da EJA.
3.4 – Inclusão Digital na EJA
Incluo aqui as questões digitais, pois, onde quer que vá deparamo-nos com o mundo digitalizado, seja em mercados, seja no banco, no ônibus e para participarmos de um grande processo democrático, as eleições brasileiras, é hora de irmos a uma urna eletrônica.
Uma definição mínima de exclusão digital passa pela falta de acesso ao computador ou ao conhecimento básico da máquina. O que fica claro para nós é que a dinâmica capitalista, de barateamento constante da tecnologia da informação está apontando para uma diferença grande entre incluídos e excluídos da sociedade informacional, até mesmo num primeiro patamar que é o acesso básico às máquinas e conexões. Esse é o primeiro nível de inclusão, referente aos recursos técnicos, mas há outros necessários, como mostra Warschauer (2006). Para esse autor, além desse primeiro nível, há outros três necessários para a inclusão digital:
§ Recursos digitais: saber, ter habilidades para buscar informações e conhecimentos, domínio do suporte;
§ Recursos humanos: pessoas com nível técnico para dar suporte aos interessados;
§ Recursos sociais: estrutura comunitária, institucional e da sociedade, além de suporte real e virtual.
Para diminuir essa diferença social e cultural que persiste em nossos estudantes da EJA, estão os papéis fundamentais da escola, em proporcionar acesso as diferentes mídias, sobretudo no uso de computadores ligados à internet, aos conteúdos da rede, à caixa postal eletrônica, aos modos de armazenamento de informações, às linguagens básicas e instrumentos para usar a rede, entre outras habilidades.
Tendo em vista um número grande de imigrantes digitais, sobretudo pessoas que estão excluídas digitalmente, entre elas os estudantes jovens e adultos, percebemos então a necessidade de incluir digitalmente essas pessoas através de um processo renovado na educação.
Diante da sociedade em que vivemos não tem como separar a alfabetização do processo produtivo da sociedade, nem tampouco, da evolução da informatização que nos encontramos, o mais coerente é que, tanto a alfabetização quanto à informatização, caminhem juntas para atenderem às necessidades da sociedade. Delcin (2005, p.68), a respeito da produção de saber com o uso da tecnologia, afirma:
Os alunos constroem o conhecimento a cada nova experiência de investigação e desenvolvem seus próprios estilos de recuperação e organização das informações. Exploram novos ambientes virtuais, constroem novos ambientes cognitivos e adquirem novas linguagens e metáforas.
Para que essas novas tecnologias sejam bem aproveitadas na sala de aula devemos conhecer cada estudante, saber suas limitações ou não com os recursos, o que cada estudante entende pelo uso da informática, pois, caso contrário, cairá num paradigma, ou seja, “Um novo método não resolve os problemas” (FERREIRO, 2001, p. 41). Do que nos adianta termos, em nossas mãos, tecnologias avançadas, sofisticadas e não sabermos como usá-la, continuarmos a dar aulas de forma tradicional, morosa e sem estímulo para nossos estudantes?
É claro que não devemos esquecer, pois é de fundamental importância, a preparação adequada do professor para o uso correto dessa nova ferramenta que é o computador, uma vez que,
O novo professor precisaria, no mínimo, de uma cultura geral mais ampliada, capacidade de aprender, competência para saber agir na sala de aula, habilidades comunicativas, domínio da linguagem informal, saber usar meios de comunicação e articular as aulas com mídias e multimídias (LIBÂNEO, 2001, p. 10).
O uso de computadores nas salas de aula, sobretudo na EJA, vem para transformar as aulas tradicionais, buscando um espaço de criação, de envolvimento, de desenvolvimento da criatividade, para que, estudantes e professores, possam juntos aprender e ensinarem usando imagens, sons, formas textuais e dialogando, tendo posições críticas sobre determinados assuntos vividos em nosso cotidiano.
O que a sociedade nos cobra é o uso do computador para integrar escola e sociedade, ou seja, formar cidadãos para tomada de decisões sobre aspectos distintos de vida (TAKAHASHI, 2000).
Quando o computador é usado como máquina de ensinar (VALENTE, 1998), espera-se que o computador repasse o conteúdo desejado através de programas, essa modalidade caracteriza-se como uma forma tradicional computadorizada de ensinar.
Já se o computador é usado como ferramenta, explica Valente (1998), o estudante desenvolve algo com ela, como, por exemplo, produzir textos usando processadores de texto, pesquisa de banco de dados, produzir músicas, entre outros. Já Freire (1995, p. 98) nos diz que:
Acho que o uso de computadores no processo de ensino-aprendizagem, em lugar de reduzir, pode expandir a capacidade crítica e criativa de nossos meninos e meninas. Depende de quem usa a favor de quê e de quem e para quê (...). Estamos preparando o terceiro milênio, que vai exigir uma distância menor entre o saber dos ricos e o saber dos pobres... (FREIRE, 1995, p. 98).
Para tanto, ter uma máquina/computador, não significa necessariamente que esta pessoa está incluída socialmente e digitalmente, a forma de uso e para que usa é que a incluíram digitalmente ou não, pois para Fagundes “inclusão digital não é só o amplo acesso à tecnologia, mas a apropriação dela na resolução de problemas” (FAGUNDES, 2005). A escola tem papel importante nesse contexto, particularmente no que diz respeito a educação de Jovens e Adultos. O próximo capítulo apresenta uma reflexão sobre a inclusão social de digital no âmbito da EJA a partir de um estudo de caso.
4 - RESULTADOS
Neste capítulo são apresentadas as práticas envolvendo uma turma de alfabetização da EJA em que foram respeitados os limites e individualidades de cada estudante, além das observações feitas em aula e as reflexões das mesmas. Em seguida, são apresentadas entrevistas feitas com os estudantes da turma.
4.1. Práticas na EJA usando TIC
4.1.1.– As práticas
Para o estágio, foram preparadas atividades voltadas para a alfabetização, em sua maioria atividades cujo enfoque baseava-se no corpo humano e meio ambiente.
Na sala de aula os estudantes aprenderam sobre alimentos, vitaminas existentes em alimentos e, após, foram exercitar o que aprenderam no laboratório de informática, com diferentes atividades.
Em uma das primeiras atividades, os estudantes deveriam encontrar os nomes referentes a cada tipo de alimento contido na roda, a fim de distinguirem o valor nutricional de cada alimento (figura 1 e 2).


Figura 3 - Roda dos alimentos 2
Todos os assuntos trabalhados em sala de aula, ou seja, alimentos, partes (órgãos) do corpo humano, vida animal e matemática, eram feitos em forma de jogos no computador, além de exercícios para coordenação motora.
Alguns estudantes tinham dificuldades de encontrar os nomes certos para os alimentos certos, ou na coordenação motora, as palavras não “iam” para os lugares certos, ou ainda, não conseguiam identificar as letras correspondentes aos alimentos. Portanto as atividades deveriam ser diferenciadas, com grau de dificuldade equivalente aos que conheciam letras e palavras.
Para alguns alunos, foram dadas atividades que lhes permitissem melhor manuseio com o mouse, como, por exemplo a atividade da figura 5, onde o estudante deve reconhecer a sobra do alimento e leva-lo até esta sombra.

Figura 4 - Sombra dos Alimentos
Algumas atividades, por mais simplificadas que fossem, exigiam muito de algumas pessoas, exatamente pelo tamanho das letras, alguns tinham sérios problemas de visão.
Por ser uma turma heterogênea os exercícios eram diferenciados, pois alguns estudantes conheciam as letras, outros conseguiam formar frases curtas e, outros ainda, não tinham habilidades com as letras.
Para uma estudante em particular, qualquer atividade que exigia um pouco mais não queria fazer, achava sempre tudo muito difícil e para que ela não ficasse sem fazer nada, as atividades eram simplificadas, como a atividade onde ela deveria somente pintar os alimentos de acordo com o seu tipo (figura 6), buscava-se assim respeitar os limites e dificuldade de todos.

Figura 5 - Pintar os alimentos
Alguns estudantes pediam para fazer caça palavras (figura 7), pois este tipo de jogo, em uma turma de alfabetização, ajuda no reconhecimento das palavras. Eles deveriam ler as palavras contidas no lado direito da tela e achar as mesmas dentro do quadro com várias letras distintas.

Figura 6 - Caça palavras de alimentos
Na atividade ilustrada na figura 8, os estudantes que estavam começando a reconhecer as letras e formar palavras, deveriam reconhecer a palavra em questão para arrastar o alimento até a palavra.

Figura 7 - Nome dos alimentos
Nota-se, pois, pelo tipo de atividade, que não estamos falando aqui do ensino de informática em si, e sim da contribuição da informática para o aprimoramento da leitura e escrita. A informática passa a ser uma ferramenta a mais no processo educacional. Nesse sentido, é sempre interessante buscar complementaridade com outra atividade. Nesse contexto, na sala de aula, após mostrar as palavras que compõem as partes do corpo (figura 9), dos estudantes montarem o corpo identificando cada parte, fomos ao laboratório de informática para colocar em prática o que haviam aprendido. Na figura 9, os estudantes desenharam o corpo de um outro aluno e, em seguida cada um ia até a imagem para escrever as partes que compõem o corpo, para, após esta atividade irem à sala de informática para colocarem em prática o que aprenderam usando o computador.

Figura 8 - Estudante escrevendo nomes de partes do corpo humano

Figura 9 - O corpo humano
Trabalhar corpo humano é uma das realidades desses estudantes em que, sua maioria composta por adultos, já passou por problemas de saúde, e usar o computador como uma ferramenta para aquisição de conhecimento é unir o real com o tecnológico.
4.1.2 – Algumas reflexões sobre a prática
Durante a realização das atividades propostas, percebeu-se grande dificuldade no controle do mouse, uma vez que estes estudantes estavam tendo seus primeiros contatos com o computador, Prensky (2001) chama este grupo de pessoas de “imigrantes digitais”, exatamente por estarem entrando na era digital, chamada por Castells (1999) de “revolução da tecnologia da informação”.
Rompendo então esta dificuldade, que é a dificuldade da maioria das pessoas que nunca tiveram contato com o computador vamos ao uso da ferramenta propriamente dita, afinal, todos os instrumentos que vêm ao encontro do serviço da humanização, tanto de oprimidos quanto de opressores (Freire, 2005), deve ser aproveitado.
Dentre algumas observações constatou-se, por exemplo, o entusiasmo dos estudantes ao saberem que iam para o laboratório de informática, além de verem aquele momento como um momento diferente dentro da escola, eles estavam se entendendo como sujeitos ativos, participando da evolução tecnológica, ou seja, entendendo e aceitando o desenvolvimento atual que gira em torno das tecnologias.
Como a maioria dos estudantes só teve contato com computadores na escola, fora isso só via de longe um computador, para eles estar “mexendo” em um computador, sabendo realizar tarefas, tendo noção da importância do computador na vida deles, para eles isso é um passo para inclusão digital, pois todas elas sabem que uma qualidade de vida passa pela informatização, uma vez que são pessoas já inseridas ou não no mercado de trabalho, para tanto eles tem noção da importância desse novo recurso dentro e fora da escola.
Durante as horas de observação feita nessa turma, percebeu-se uma luta interna muito grande desses estudantes, lutavam constantemente para a superar suas dificuldades, a ponto de ficarem chateados quando não aprendiam, naquele instante, algo. Por outro lado, quando entendiam saiam dizendo ser aquele o melhor dia de suas vidas.
Essa turma tinha a característica de gostar de ouvir, falavam, participavam, mais ainda tinham consigo aquele modelo tradicional de escola onde quem fala é o professor.
Para tanto, desenvolver o senso crítico de um adulto que, durante parte de sua vida viveu na rua, ou uma mulher viúva com filhos pequenos sem saber ler e escrever, homens que nunca haviam brincado quando criança, pois tinham que trabalhar. Para estas pessoas, indagar um professor, cuja imagem é de uma pessoa que “sabe tudo” estava, naquele momento, fora de cogitação, por isso o diálogo com os estudantes nos ajuda a entender, saber de que forma pensam e o que querem para suas vidas e, acima de tudo, o que querem aprender, que seja importante para seu momento atual, como diz Freire (1992) devemos manter uma relação dialógica com nossos alunos.
O retorno que esses estudantes nos dão é sempre gratificante, é gratificante ver a felicidade quando conseguem ler uma palavra, quando, no computador, conseguem ir para outra página sem precisar de ajuda. Isso é papel da escola, proporcionar aos estudantes contato com as diferentes mídias, uma vez que são estudantes/famílias carentes cujo acesso à informática é quase que nulo fora da escola.
Uma educação renovada, que respeite e faça cumprir a Lei, cujo direito à informação passa por todos os cidadãos, tende a diminuir as desigualdades sociais, sobretudo as desigualdades digitais, dando direito à informação, comunicação, cultura e lazer.
4.2 – Entrevistas
Segundo relato dos estudantes, frente ao computador, as atividades eram fáceis, claras, dinâmicas e simplificadas, além de divertidas.
Incluir o computador na vida desses estudantes é reinventar uma nova prática em sala de aula, como nos afirma Valente (1998), o computador serve como recurso para que o estudante possa criar, pensar e manipular informações, não é somente um suporte ou braço direito do professor.
Nenhum desses estudantes possuíam computador em casa e só uma das estudantes disse que no ano seguinte (2011) compraria um computador para o filho usar para estudar e, quando tivesse tempo, também usaria.
Os demais estudantes diziam que era um bem difícil de se conseguir. Isso se dá pelo fato de serem pessoas com baixo poder aquisitivo, uma vez que, dos cinco entrevistados somente uma estudante trabalha de agente de serviço pela prefeitura, os demais não tinham profissão definida.
Para estes estudantes o computador tem uma finalidade básica, ou seja, aprender a ler e escrever, uma das estudantes disse que além de ler e escrever servia também para ver os números e, exatamente a estudante que trabalha acrescentou dizendo que serve também para trabalhar, mesmo não conseguindo dizer em que tipo de trabalho o computador serve.
Isso nos mostra claramente que, para este grupo de estudantes em especial, o computador é importante para algo que para eles é prioridade: o aprender a ler e escrever, ou seja, o computador é uma forma de potencializar a aprendizagem da leitura, escrita e cálculos matemáticos.
Segundo indagações feitas com os estudantes, além do computador que eles utilizam na escola, o celular é a tecnologia mais presente na vida de três dos cinco estudantes, perguntado sobre as funções utilizadas no celular de cada um, além de fazer e receber chamadas é tirar fotos. Dos três estudantes que possuem celular, duas estudantes conseguem ler algumas palavras, portanto conseguiam ler mensagens recebidas, quando tinham dificuldades pediam auxilio para a pessoa mais próxima ou esperavam chegar em casa para saber do que se tratava a mensagem. A inclusão digital passa, então, também por outras tecnologias além do computador.
Todos os estudantes tiveram seu primeiro contato com o computador na escola, isso nos mostra a grande responsabilidade que temos na vida dos estudantes, principalmente estudantes jovens e adultos que, por algum motivo tiveram extraído de suas vidas a oportunidade de aprender, em idade regular de ensino, noções básicas de informações sobre exigências da sociedade, sociedade que exige qualificação, que já discutimos no capítulo 3.
Embora fosse declarado o gosto pelo uso do computador, todos declararam que preferiam ler no caderno, pelo fato de acharem que teriam mais tempo para ler. No entanto duas estudantes disseram, devido ao problema de visão e a claridade da tela, sentir dificuldade para ler no computador, sendo assim preferem ler no caderno, mas que mesmo assim, gostavam de estar enfrente à máquina, pois as auxiliavam muito no entendimento da matéria passada em sala de aula.
Na verdade todos os estudantes afirmaram categoricamente que o computador os auxiliava no aprendizado, trazendo informações novas e isso se dá pelo fato de que este recurso apresenta cores vivas, animações, além de o computador mostrar as ações de forma mais detalhada.
Além da dificuldade na leitura quando feita na tela do computador, todos disseram que a escrita também fica dificultada, uma vez que eles estão ansiosos para ver o resultado de seu trabalho, escrever no computador se torna demorado, pois como eles não têm noção do lugar das letras no teclado, a dificuldade dobra. Estão aprendendo a reconhecer as letras e tem que reconhecê-las no teclado onde existem muitas outras letras diferentes, o término de sua produção de escrita torna-se um processo moroso, com a ansiedade natural de quem quer aprender rápido então eles preferem escrever no caderno.
O fato descrito a cima é relatado por uma das estudantes que vamos chamar de Maria (nome fictício), ao ser perguntada se o computador ajuda a entender a matéria passada em sala de aula:
Entende aqui a professora falando mais o computador ajuda a gente desenvolver a cabeça.(Dona Maria, 47 anos).
Sobre as dificuldades encontradas no uso do computador, Dona Maria conclui:
Eu acho difícil, no momento eu acho, pra mim né? Na hora de procurar as letras, só isso eu acho difícil.
O que a estudante relata é, para as atividades propostas até o momento, ela teve que entrar nas “regras do jogo”, o que o jogo, por exemplo, de associar a palavra escrita com as frutas apresentadas nas figuras, ela tinha que prestar muita atenção e se esforçar para o reconhecimento de cada letra ali apresentada e, a partir daí, tentar “levar” a fruta até a letra.
Além do mais, está tudo pronto no computador, ela só tem que ler, e quando D. Maria e os demais estudantes conseguem ler sozinhos o que está escrito na tela, sem que precise do auxilio do professor, isso é um grande passo na vida dessas pessoas, que outrora não diferenciavam uma letra da outra. Pois, como afirma Freire (1995) o computador ajuda a desenvolver a capacidade crítica e autônoma dos estudantes, preparando-os para uma vida mais digna em sociedade.
Neste momento, além de proporcionar que estes estudantes tenham contato com ferramentas, que eles imaginam jamais ter em casa, estamos ajudando-os a superar desafios, o desafio de ter contato com a máquina, e o desafio de conseguir ler o que se pede no jogo.
Já, uma segunda estudante, que vamos chamar de D. Márcia (nome fictício), ao ser questionada sobre o que mais gostou de fazer no computador, ela disse o seguinte:
Do caça palavras, porque daí eu sei mais, tem letras [palavras] que eu não conheço daí ta lá e eu aprendo. (D. Márcia 44 anos)
Ou seja, os estudantes foram unânimes ao dizerem que preferem ler e escrever no caderno, mas se as tarefas estão à disposição deles, isso torna mais fácil o entendimento, uma vez que, no jogo de “caça palavras”, as palavras estão prontas em um dos lados da tela é só procurá-las no emaranhado de letras, se ela, D. Márcia não sabia como escrever a palavra, ela (palavra) já está pronta, então agora ela sabe.
O uso das tecnologias na EJA tem finalidade de mostrar aos estudantes o que a sociedade atual exige de todos os cidadãos, da importância clara na tomada de decisões no uso das tecnologias, além a aquisição de informações.
Para fazer uso das tecnologias em uma turma de alfabetização de jovens e adultos deve-se ter uma relação dialógica entre professor e aluno, a fim de conhecer as vontades e necessidades desses estudantes, para assim, respeitar as individualidades e limites de cada um.
Durante as entrevistas ficou claro que, para esta turma particularmente, o computador ajuda no aprendizado, é mais um instrumento que os ajuda na aquisição do conhecimento, além de abrir portas de emprego. A escola quando proporciona o uso de computadores para essas turmas, está ajudando a desenvolver interesse pelas tecnologias, além de mostra-lhes a importância do mesmo na sociedade atual.
Em suma, o uso de computadores por estudantes jovens e adultos provoca curiosidades, tensões, medos, fascínio e incertezas, pois apesar das dificuldades encontradas e já citadas aqui, todos disseram querer continuar usando o computador.
A indagação feita no inicio deste trabalho sobre a introdução da vida dos estudantes da EJA ao mundo digital, estudantes que, não possuem computadores em suas casas e que, até então, nunca haviam tido contato com essa máquina, será possível?
As hipóteses levantadas de início seriam que a apresentação deste recurso seria morosa, pelo fato de estudantes adultos, com experiências de vida e com família, saberem o valor monetário que tem cada material, inclusive o computador. Sabendo disso a dificuldade inicial dos estudantes seria o medo de estragar/danificar o computador. Outra ainda, de não gostarem de estar ali, de preferirem o caderno, a sala de aula ao laboratório de informática, uma vez que eram estudantes que gostavam de escrever, achavam a aula boa quando tinham muitas coisas para escrever e ler, ou seja, eram estudantes que ainda tinham em mente as aulas de criança, que o professor falava e eles ouviam.
O fato é que eles tinham cuidado, de inicio sempre nos chamavam para mudar a atividade, com o passar do tempo eles mesmos mudavam a página ou o exercício e gostavam de estar ali, se sentiam bem. Eles queriam que estivéssemos ao lado quando acertavam uma questão para nos mostrar que estavam aprendendo.
É fato que ao sentarem em frente a um computador os estudantes jovens e adultos sentem-se valorizados e com sua auto-estima elevada, assim como é fato o orgulho que um professor sente ao ver a reação de alegria e contentamento nos olhos de pessoas que foram até então menosprezadas, excluídas e descriminadas por uma sociedade hipócrita e medíocre, que ela própria formou.
As propostas para as aulas de informática vinham de acordo com as propostas da escola, uma vez que a escola não permitia a mudança do plano anual da mesma, para tanto foi alterada a metodologia, como falar de forma atual com pessoas que tinham e ainda tem a imagem da escola como “transmissora de conhecimento”, onde o professor fala, ele ouve e copia o que está no quadro.
Ao final desse trabalho percebemos a importância do resgate da cidadania, da dignidade desses estudantes jovens e adultos.
Entender o mundo em que vive esses estudantes também ajuda no resgate da política, na tomada de decisões, em questões familiares, de direitos como, moradia, saúde, lazer, segurança e entendendo isso essas pessoas têm melhores expectativas de vida, seja no âmbito social e/ou individual.
Ao ouvirmos a frase popular “Daí ao homem o que é do homem”, nada mais queremos dizer do que “Daí ao ser humano o que é de direito”, o que é garantido por lei, que é uma educação gratuita e de qualidade a todas as pessoas, proporcionando a elas dignidade e bem estar social, portanto falta vontade política para fazer cumprir a lei.
A intenção do trabalho é mostrar que a tecnologia veio pra ficar e nos ajudar, como já nos afirmou Castells (1999) que quanto mais evoluída tiver a tecnologia dentro de fábricas e nos escritórios, maior será a necessidade de terem pessoas preparadas, com capacidade para decidirem, tomarem decisões sobre o uso dessas tecnologias. Além de a tecnologia estar presente em vários momentos de nosso dia-a-dia, como por exemplo, em caixas eletrônicos, catracas eletrônicas, urnas eletrônicas, celulares, etc.
Nesse contexto de incorporação intensa de TICs na vida diária, seja para afazeres em geral, seja no trabalho, a questão que se impõe, no contexto deste trabalho, é a inserção dos imigrantes digitais. Percebemos a importância do resgate da cidadania, da dignidade dos estudantes jovens e adultos, o que passa também (mas não só) pela inclusão digital dos mesmos.
Para tanto, uma boa educação, nos dias atuais, deve ser uma educação renovada e essa renovação passa pela informatização, orientando de forma adequada nossos estudantes jovens e adultos.
Além das questões citadas acima, ter uma educação dialógica é dar oportunidades para que estes estudantes, que não são mais crianças, falem a respeito de suas vontades e necessidades, do mundo que os rodeiam, para, a partir daí, traçarmos metas, objetivos e prepará-los para o mundo, dar-lhes perspectivas de uma vida melhor.
A alfabetização de jovens e adultos é fundamental, assim como é fundamental também a preparação dessas pessoas para o uso de novas tecnologias, para ciências, comunicação, política, enfim, a preparação adequada para a cidadania. Deve-se, pois, buscar a inclusão social nos seus múltiplos níveis.
Além das condições básicas de vida, esse cidadão terá assegurado sua história de vida, sua luta, seu conhecimento, habilidades, enfim, sua cultura própria que não é passado apenas pelo conhecimento formal e sim pelo reconhecimento de sua origem uma vez que nossa leitura de mundo (FREIRE E MACEDO, 1987) vem mudando a cada nova geração.
As dificuldades encontradas neste trabalho ficaram mais precisamente nas restrições ao uso do computador pela responsável pela sala de informática, como por exemplo, ao se fazer pesquisas e o armazenamento da mesma nos computadores era proibida com a alegação de que se “lotaria” disco rígido, ou ainda, os estudantes só podiam desligar o computador isso se fosse a última turma a utilizar a sala, nunca ligar, pois se corria o risco de danificar a máquina, ou seja, os recursos tecnológicos, apesar de existentes, tinham tipos de restrições de uso que dificultaram a própria coleta de evidências para este trabalho.
Muitas discussões ainda estão por vir e submeter tanto estudantes quanto profissionais da educação para atentarem para o uso das novas tecnologias enquanto ferramentas indispensáveis para contribuição da formação social e intelectual. Assim, como forma de dar continuidade a esse trabalho, pode-se pensar na questão da preparação dos professores responsáveis ou não pelo laboratório de informática, além das diversas metodologias empregadas a cada série/ano no que diz respeito ao uso dos recursos tecnológicos.
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Apêndice A
Guia utilizado para entrevistas com os estudantes.
1. Nome
2. Idade.
3. Profissão.
4. Quais aparelhos tecnológicos você utiliza?
5. Você tem dificuldades de usar estes aparelhos tecnológicos?
6. Quais destes aparelhos você utiliza em seu trabalho?
7. Para que serve computador?
8. Para que serve computador na sua vida?
9. Quando usou computador pela primeira vez?
10. Antes de o estágio começar, vocês usavam computador?
11. Como foi o uso do computador durante o estágio?
12. Você gostou de usar computador?
13. Na sua casa tem computador? Quem usa?
14. Você entende bem as letras no computador?
15. Você escreve melhor no computador ou no caderno?
16. O computador ajuda você a aprender o conteúdo passado em sala de aula?
17. Você acha que é difícil “mexer” no computador?
18. O que é difícil no computador?
19. Você quer continuar usando o computador?